(Very) Slow Fashion

16:41

Dia desses dei uma entrevista para uma aluna da PUC, sobre o processo criativo da Prosa e resolvi compartilhar aqui o teor da conversa, já que muitas de vocês gostam de posts mais aprofundados sobre o tema moda. O assunto foi Slow Fashion, um conceito que vem ganhando cada vez mais adeptos no mundo de quem cria e produz moda. Para contextualizar vocês, slow fashion é um termo que, como o próprio nome indica, corresponde a um movimento de desaceleração da moda, a busca de uma moda mais lenta, digamos assim, que se opõe ao conceito e fast-fashion que nós conhecemos tão bem. Ronaldo Fraga é um dos estilistas brasileiros que aderiu a essa forma de trabalho, mas na Europa o conceito de slow fashion já é bem mais difundido que no Brasil e muitos designers ganham o pão nosso de cada dia sem precisar entrar na loucura de um mercado ansioso.

A ideia principal é de que o processo criativo deve respeitar algumas características que deveriam ser essenciais à produção de uma moda com qualidade: valorização da mão de obra artesanal, o uso de materiais naturais e recursos sustentáveis, a migração da produção industrial em larga escala, para a confecção em pequenos ateliês, enfim, a humanização do processo de produção como um todo, visando uma produção mais consciente e com muito mais qualidade. Se por um lado o custo dessa produção é dispendioso e gera produtos mais caros para o consumidor, por outro estes produtos são mais duráveis e chegam ao mercado com uma qualidade infinitamente superior, além de serem produtos feitos com carinho e o maior respeito pelos profissionais envolvidos.

Eu acredito que o Slow Fashion é um movimento urgente e necessário para dar fôlego a uma indústria ultra-saturada, frenética, consumista, que está beirando o colapso nervoso. Eu mesma já parei de prestar atenção a todas as coleções que entram nas lojas a uma velocidade que nem meus olhos nem meu bolso conseguem acompanhar. Com cada vez menos tempo para criar, modelar, pilotar, costurar uma coleção, e com cada vez mais demandas do consumidor por novidades, o que acontece com quem cria para o mercado de moda, é uma necessidade de produzir roupas como se fossemos padaria: 2 fornadas por dia. E o que acontece com o consumidor? Ele não consegue mais discernir sobre o que ele realmente deseja e acaba enchendo os armários de peças que duram pouco mais de 2 meses, alimentando um pequeno monstrinho insaciável dentro do bolso.

E nessa história a gente não sabe quem incentiva mais a loucura: o consumidor sedento de novidades instantâneas e 20 coleções por ano, ou as marcas que trabalham nesse ritmo alucinante, alimentando a neurose das pessoas. O fato é que hoje, com uma loja online, eu percebi que tentar sanar essa euforia consumista enchendo a loja de novidades toda semana é, além de uma tarefa impossível, uma verdadeira exaustão sem fins lucrativos. Por que novidade o tempo todo não quer dizer venda. Mas ter tempo para preparar boas novidades, isso sim dá certo. :)

 


Fotos da primeira estampa de inverno da Prosa, que ainda está em produção. A inspiração no gibão dos cangaceiros nordestinos serviu de estética para a montagem das estampas de encaixe.


E é por isso que as coleções na Prosa demoram tanto a sair: por que somos apenas 4 pessoas (eu, mamãe e duas costureiras não fixas) para dar conta de todo o processo: da criação, à venda, passando pelo design das estampas, escolha dos tecidos, impressão, modelagem, corte, pilotagem, acabamentos, costura, fotografia, redes sociais, vendas, correios, emails, etc. No começo a gente entrou nessa neurose de querer criar coleções o tempo todo, mas agora percebemos que nosso ritmo é mais lerdinho mesmo, até pela falta de mão de obra.

A gente faz tudo com calma, com tempo pra testar vários acabamentos, vários tipos de tecido, várias impressões, várias modelagens. É bem verdade que às vezes dá um nervoso de não ver a coisa pronta VERY FAST, mas a gente respira e segue em frente com a velocidade que a vida nos permite. No final das contas, além de ficarmos bem mais felizes com o resultado final das peças, temos mais controle sobre a nossa produção, ainda que ela não chegue à loja 5 meses antes da estação para a qual ela foi criada.

E vocês, o que acham desse assunto? A moda precisa desacelerar ou tá bom 5 coleções por mês nas lojas? hehehe

Beijos, Carols

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17 comentários

  1. Rafaella Oliveira26.5.15

    Carol, adorei ler esse texto
    Principalmente para ampliar minha mente e pensar sobre o consumo não necessário!
    Obrigada por compartilhar seu conhecimento, com certeza alimentou em mim uma vontade enorme sobre as praticas de processo, criação e venda.
    Beijos e sucesso!

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  2. Sou muito a favor da slow fashion pois também tenho uma loja virtual com peças que eu mesma crio, modelo, compro tecido, costuro, fotografo e vendo hahahha...é questão de necessidade também, no meu caso.
    Para quem trabalha com isso a dificuldade é como você falou de não ver logo a peça pronta mas acho que é questão de se reeducar para curtir mais o processo e não só o produto final.
    Me identifico muito com suas ideias Carol, e sempre compartilho seus textos no grupo do curso de modelagem e todas curtem muito.

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  3. Sensacional! #tamojunto

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  4. Vilma27.5.15

    E esse moletom maravilhoso entra na loja quando????!!!!! Quero reserva um p mim! kkkkk
    Muito legal sua abordagem Carol. Cheguei até a Prosa na minha busca exatamente disso,
    saber se a roupa q eu estou usando é fruto do sofrimento de alguém ou não.
    Minha avó era costureira, minha mãe é costureira e eu cresci nesse universo, idealizando e
    montando ideias do que eu queria vestir. Parabéns por valorizar isso é o máximo!

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  5. Fernanda Medeiros27.5.15

    Nossa, essa urgência e ansiedade da moda me incomoda muito! Tenho uma loja multimarcas e tento trazer para o meu cliente peças que ele vai poder usar sempre, quando alguma peça está massificada demais nas lojas prefiro não ter na loja. De qualquer forma, acho que o fast fashion e o slow fashion podem caminhar lado a lado, sempre oferecendo diversas escolhas para todo mundo. Parabéns Carol, amo o seu blog e o seu trabalho na prosa, continue assim fiel a quem você é. Bjs e sucesso!

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  6. Gleide27.5.15

    Ufa! A gente agradece pela reflexão e por saber que há criadores, como você, produzindo pensando na moda e não no consumismo.;-)

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  7. Carolina30.5.15

    Slow!Essa é a palavra.

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  8. Mônica30.5.15

    Espero que seja um movimento cada vez maior, de pessoas se preocupando em saber mais sobre todo o processo atrás de cada peça, e também de se tocar que definitivamente não precisamos de tanta coisa assim.
    Lembrei de um texto super legal que li na oficina de estilo dia desses:
    http://oficinadeestilo.com.br/2015/05/25/5-ideias-pra-construir-um-guarda-roupa-etico/

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  9. Uau que post. Muito Obrigada Carol, por sempre nos lembra que estilo é ao muito mais artístico do que cosumismoss...Parabéns!

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  10. Acho que nem preciso mais falar que sou sua fã! Arrosô!

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  11. Hilcia30.5.15

    Adorei ler sobre isso! Bom desacelerar! Ja basta nossa vida louca! Pensando bem, o bom do desacelerar é poder vestir algo com mais capricho, com qualidade, do jeito que queremos e com um pouco mais de exclusividade. No olhar mais atento, tendemos a buscar algo que nos identifique mais, que seja mais o nosso estilo!

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  12. Rebecca30.5.15

    Carol, concordo c vc q nao p manter esse ritmo insano. Por exemplo, eu adoro a C&A, mas em menos d um mes lancar duas colecos eseciais (Maria Filo e Kim Kardashian) nao da!

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  13. Adoro suas reflexões. Faz a gente parar pra pensar em como lidamos com a moda, e cada vez mais percebo que comprar mais não faz a gente ter um estilo legal. Hoje, olho muito mais e pesquiso a origem das peças antes de comprar, faz diferença e me sinto mais feliz!
    www.simplesbela.com

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  14. que estampa DEUSA!!!!!

    QUERO SUPER!!!!

    bjoKas :**

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  15. Camila Fleury31.5.15

    Carol, eu tô super de acordo com seu ponto de vista sobre o seu processo mais lento e que essa forma deveria ser mais adotada. Ainda penso que como a Prosa também é recente, deve levar mais um pouco de tempo pra se estabelecer no mercado como marca - não pela ausência de consumidores, mas pra dar mais espaço pra que eles assimilem a marca pelo seu conceito e dê tempo deles 'digerirem' isso, enquanto que se vc fosse uma fast fashion, eles poderiam deixar de entender porque a Prosa tá ali, qual o propósito de sua criação.
    Aliás, esse negócio de ser rápido acaba por te obrigar a ter boas ideias: as minhas, por exemplo, só surgem no banho ou antes de dormir, me tirando até o sono. ¬¬ hahahaha. Eu gosto de pensar nas coisas sem ter um prazo pra isso pra que elas se desenvolvam da forma que deveriam ser e que ainda me permitam ter tempo de mudá-las. Hoje em dia é tudo tão veloz que sai uma coleção e logo vem uma 'cápsula'. Ou seja, vc tem que correr atrás das tendências lançadas quando nem sabe porque tá correndo.

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  16. Aline Costa1.6.15

    Essas fotos ficaram lindas Carol. Graças aos seus posts eu tenho pensado bem mais na hora de comprar alguma peça e agora só levo pra casa o que realmente é necessário e que sei que vou usar muito.

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  17. TAVIS ESPINDOLA1.6.15

    Cara, isso é música para os meus ouvidos, ou melhor, colírio para um olho cego e cansado de ver tanta informação desnecessária. Parabéns pela forma como você vê a moda e processo criativo. Espero que as marcas se adequem ao Slow Fashion. O seu blog é realista e funcional. <3 Bjos

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