Um diário de vida, viagens e estilo.

ofélia

27 setembro 2010


A morte de Ofélia

Junto ao plácido rio
Que entre margens de relva e fina areia
Murmura e serpenteia,
O tronco melancólico e sombrio
De um salgueiro.

Uma fresca e branda aragem
Ali suspira e canta,
Abraçando-se à trêmula folhagem
Que se espelha na onda voluptuosa.
Ali a desditosa,
A triste Ofélia foi sentar-se um dia.

Enchiam-lhe o regaço umas capelas
Por suas mãos tecidas
De várias flores belas,
Pálidas margaridas,
E rainúnculos, e essas outras flores
A que dá feio nome o povo rude,
E a casta juventude
Chama - dedos da morte - O olhar celeste
Alevantando aos ramos do salgueiro,
Quis ali pendurar a of'renda* agreste.

Num galho traiçoeiro
Firmara os lindos pés, e já seu braço,
Os ramos alcançando,
Ia depor a of'renda peregrina
De suas flores, quando
Rompendo o apoio escasso,
A pálida menina
Nas águas resvalou; foram com ela
Os seus-dedos da morte - e as margaridas,
As vestes estendidas
Algum tempo a tiveram sobre as águas,
Como sereia bela,
Que abraça ternamente a onda amiga.

Então, abrindo a voz harmoniosa,
Não por chorar as suas fundas mágoas,
Mas por soltar a nota deliciosa
De uma canção antiga,
A pobre naufragada
De alegres sons enchia os ares tristes,
Como se ali não visse a sepultura,
Ou fosse ali criada
Mas de súbito as roupas embebidas
Da linfa calma e pura
Levam-lhe o corpo ao fundo da corrente,
Cortando -lhe no lábio a voz e o canto.

As águas homicidas,
Como a lage de um túmulo recente,
Fecharam-se, e sobre elas,
Triste emblema de dor e de saudade,
Foram nadando as últimas capelas.

Machado de Assis

Beijos, Carols
2 comentários on "ofélia"
  1. Carol,

    tás linda ^^.

    Adorei a produ,

    Bj

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  2. Anónimo28.9.10

    Onde encontro esse casaquinho ele é muito lindo!!

    Adoro seu blog super show!

    Parabéns

    @marilliapontes

    ResponderEliminar

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